Educação do caráter no currículo transversal

Escola deve incluir educação do caráter em temas transversais Alfonso Aguiló, escritor e educador A seguir transcrevemos uma entrevista concedida pelo professor Aguiló ao jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, publicada dia 9 de dezembro. Nenhuma sociedade alcança um desenvolvimento autêntico apenas com aumento de renda ou altas notas escolares, alerta o educador e escritor espanhol Alfonso Aguiló. Para ele, progresso verdadeiro ocorre quando os cidadãos de um país põem em prática o amor à justiça, à verdade, à solidariedade. Enfim, quando se preocupam em ter bom caráter. Autor de dez obras sobre educação e antropologia, o engenheiro de 55 anos que migrou para a área de Humanas e participou da fundação de vários colégios na Espanha, coloca o foco de seus escritos na discussão dos valores morais e afirma que a escola e a família têm papéis fundamentais no desenvolvimento de pessoas virtuosas. Aguiló esteve em Curitiba no dia 2 de dezembro para o lançamento de seu livro “Educar o caráter”, na Escola do Bosque, e conversou com a reportagem. Veja os principais trechos da entrevista. Gazeta do Povo: O senhor fala muito de valores morais em seus livros, e esse é um tema frequentemente vinculado às religiões. É possível trabalhar com o assunto na escola sem relacioná-los a uma crença? Alfonso Aguilo: Sim, logicamente, os valores morais estão vinculados à natureza do homem. Aqueles que têm crenças religiosas reforçam esses valores com a noção de que foram criados por Deus, de que têm determinada missão nesta vida ou outras motivações sobrenaturais, mas os valores morais, em si mesmos, são válidos e perfeitamente admissíveis por qualquer pessoa, seja ela religiosa ou não. GP: O livro que está lançando chama-se Educar o caráter. Existe um método a ser seguido para alguém ter bom caráter? AA: Na educação há uma grande diversidade de caminhos para se alcançar objetivos, e cada família, cada escola, cada professor pode encontrar uma maneira diferente. Mas acho que quase toda a sociedade concorda que valores morais são importantes para a educação. Por isso é importante que a escola invista esforços na formação de valores em seus alunos. A escola deve preocupar-se em torná-los presentes de modo transversal na vida escolar. Conheço boas escolas que trabalham com calendário de temas, e a cada semana ou a cada mês abordam uma virtude diferente. Muitas escolas gostam de publicar os valores que defendem em suas páginas online, mas só se pode constatar se elas são realmente ensinadas pelo comportamento de professores e alunos daquela instituição. GP: Como você definiria alguém que tem o caráter devidamente educado? AA: É alguém que vive esses valores humanos de que falamos. Uma pessoa trabalhadora, com amor à verdade, amor à justiça, preocupada com os demais, alguém dotado de uma psicologia sadia, que saiba trabalhar em equipe, tenha autocontrole, saiba ser simpática com os colegas e se esforça para compreender os sentimentos dos outros. Cito como característica também a habilidade de reconhecer as próprias emoções e dirigi-las com inteligência. São muitos os elementos que refletem uma boa formação moral, e isso não tem a ver com os resultados acadêmicos, nem com os idiomas que sabe. Mas fará enorme diferença em diversas decisões importantes na vida, por exemplo, na decisão de com quem se casar ou na escolha dos projetos pessoais que merecem mais dedicação. GP: Outro de seus livros fala sobre educar os sentimentos. Pode esclarecer a diferença em relação à educação do caráter? AA: O caráter é mais amplo. Ele engloba a vontade, a inteligência e os sentimentos. Os sentimentos, portanto, são só uma parte, mas uma parte importantíssima. Educá-los significa conhecer a si mesmo, aprender a lidar com aquilo que sente e assim aprender a tratar aos demais com inteligência emocional. Quem aprende a educar os sentimentos encontra muito mais satisfação na vida e tem enorme potencial para ajudar as pessoas ao seu redor. Isso também raramente é contemplado nos currículos acadêmicos, mas os bons educadores, as famílias e a escola precisam se dar conta do quanto essa formação é importante para meninos e meninas. GP: Poderia destacar as diferenças mais marcantes que notou entre a educação brasileira e a espanhola? AA: Não me atrevo a fazer comparações, porque seria pouco honesto de minha parte. Tenho pouco conhecimento para fazer uma análise justa. Mas posso dizer que na Espanha a educação não vai muito bem. Passou-se muito tempo sem que se desse atenção à cultura do esforço nas escolas, e hoje colhemos resultados ruins nas avaliações externas. Quando comparada a outras nações a Espanha têm obtido um desempenho modesto. Apesar disso, há instituições educativas, tanto públicas como privadas, que trabalham muito bem, e suponho que no Brasil ocorre algo parecido.]]>